A Excelsa Mãe do Redentor: Por uma defesa de Maria – Parte 3
Por Chirlei Matos *
2. A Virgindade Perpétua
A Liturgia da Santa Igreja Católica celebra Maria como a “sempre Virgem”, a Aeiparthenos (CIC, 499). Portanto, cremos firmemente que a Mãe do Salvador permaneceu virgem antes, durante e após o parto.
A perene virgindade de Maria foi definida como dogma pela cristandade no ano de 649, no Concílio Regional de Latrão (não se trata de nenhum dos cinco Concílios Ecumênicos de Latrão, mas de um concílio não-ecumênico ocorrido nessa localidade).
Se alguém, segundo os Santos Padres, não confessa que própria e verdadeiramente é Mãe de Deus a santa e sempre virgem (grifo nosso) e imaculada Maria, já que concebeu nos últimos tempos sem sêmen (grifo nosso), do Espírito Santo, o próprio Deus-Verbo (…) e que deu à luz sem corrupção, permanecendo a sua virgindade indissolúvel mesmo depois do parto (grifo nosso), seja anátema”.1
Não obstante a definição dogmática se tenha dado apenas no século VII, as origens dessa crença remontam aos primórdios Cristianismo, encontrando ressonância na Sagrada Escritura e, mais claramente, nos textos patrísticos.
A Virgindade antes do parto
Os Evangelhos afastam qualquer dúvida de que Jesus não tenha nascido unicamente pelo poder do Espírito Santo, no seio da Virgem Maria. Isto está nitidamente expresso nas próprias palavras de espanto da jovenzinha ao Anjo Gabriel quando este lhe anuncia que ela conceberá o Filho do Altíssimo: “Como se fará isso, pois não conheço homem?” (Lc 1,34). Ao que o Anjo responde: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá como sua sombra. Por isso, o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus”. (Lc 1,35). O Anjo Senhor também aparece em sonhos a José, noivo de Maria, que, sendo justo e não querendo denunciá-la publicamente, intentava abandoná-la em segredo ao saber de sua gravidez – atitude que explicita que não haviam coabitado. E o Anjo disse-lhe: “José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo”. (Mt 1,20). Isso aconteceu para que se cumprisse a profecia de Isaías, que assim declara: “Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um Filho, que se chamará Emanuel”. (Is 7,14). O termo hebraico Almah empregado pelo Profeta, embora não faça alusão direta à virgindade, dificilmente seria usado para designar uma mulher casada. Ademais, esse termo é traduzido para Aeiparthenos (gr.: virgem) pelos sábios de Alexandria na Septuaginta (Bíblia dos Setenta). O evangelista São Mateus, ao fazer a citação de Isaías, utiliza a palavra na sua forma grega. A Bíblia latina (Vulgata) segue-lhe o exemplo, chamando Maria de virgo (virgem). Fica claro através dessas passagens que Jesus foi concebido absque semine (sem sêmen), pois Maria não teve consórcio conjugal para gestar o Cristo.
A Virgindade durante o parto
Cremos que o nascimento de Jesus não violou o Sacrário de sua morada; que, longe de depreciar a integridade do corpo de Maria, Ele a deixou incólume, como a luz do Sol que consegue atravessar o cristal sem rompê-lo. “Com efeito, o nascimento de Cristo não diminuiu, antes consagrou a integridade virginal da sua Mãe” (CIC, 499). Esse portentoso prodígio é um milagre acessível apenas a fé, inalcançável ao intelecto.
A Virgindade após o parto
A Igreja crê e sustenta que Maria permaneceu virgem após o nascimento de seu Filho, ou seja, que não manteve relações sexuais com seu esposo. A virgindade post partum não significa, no entanto, um menosprezo da vida conjugal ou uma depreciação do sexo no casamento. De modo algum! Devemos compreender essa opção de Maria como um firme desejo de dedicar-se exclusivamente ao seu bem-amado Filho e de manter intacto o ventre que fora tabernáculo do Deus-Filho. Os Padres da Igreja aplicam uma passagem do profeta Ezequiel à perene virgindade de Maria: “O Senhor disse-me: Esse pórtico ficará fechado. Ninguém o abrirá, ninguém aí passará, porque o Senhor, Deus de Israel, aí passou; ele permanecerá fechado.” (Ez 44,2). Referindo a esse trecho, assim comenta Santo Ambrósio de Milão:
“Que porta é esta senão Maria, que permanece fechada por ser virgem? Portanto, esta porta foi Maria, através da qual Cristo veio a este mundo graças a um parto virginal, sem romper os claustros fecundos da pureza. Permaneceu íntegro em seu pudor e se conservaram intactos os selos da virgindade, enquanto nascia Cristo de uma Virgem cuja grandeza não podia sustentar o mundo inteiro. Esta porta – disse o Senhor – há de permanecer fechada e não se abrirá. Bela porta: Maria, que sempre se manteve fechada e não a abriu! Passou Cristo através dela, mas não abriu”.2
Várias confissões do Protestantismo contemporâneo rejeitam o dogma da Perpétua Virgindade de Maria sob a objeção de que os Evangelhos mencionam que Jesus teve outros irmãos. Com efeito, há diversas passagens neotestamentárias que aludem aos supostos “irmãos de Jesus” (Mt 12,47; 13,55; Mc 3,31; 6,3; Lc 2,7; 8,19; Jo 2,12; 7,3.10; At 1,14; Gl 1,19; I Cor 9,5). Como a Igreja interpreta essas passagens? Maria teria tido outros filhos além de Jesus? Se respondermos afirmativamente a essa pergunta, o dogma da Virgindade Perpétua cairá por terra, via de consequência. Para conseguirmos dirimir essas questões, é mister fazer uma exegese acurada desses textos para entendermos o seu contexto.
Maria teve outros filhos?3
É verdade que no Novo Testamento, em especial nos Evangelhos, há diversos trechos que nos levariam a depreender, a priori, que Jesus teve outros irmãos. Todavia, a Igreja sempre entendeu que esses supostos “irmãos do Senhor” designam, na verdade, primos ou parentes próximos do Messias. A fundamentação dessa inferência encontra-se na própria Escritura. Com efeito, por diversas vezes, o AT emprega o termo “irmãos” para se referir a pessoas que, evidentemente, não se tratam de filhos dos mesmos pais, mas para expressar um grau de parentesco. Analisemos algumas delas.
Em Gn 13,8, encontra-se escrito: “Abraão disse a Lot: ‘Rogo-te que não haja discórdia entre mim e ti, nem entre nossos pastores, pois somos irmãos”. Mas sabemos por outras passagens (Gn 11,27; 12,5) que Lot não era irmão do patriarca Abraão e, sim, sobrinho deste.
Ainda em Gênesis, podemos ler: “E Labão disse-lhe [a Jacó]: ‘Acaso, porque és meu irmão, servir-me-ás de graça? ’” (29,15). Sabemos igualmente que Jacó não era irmão de Labão, mas seu sobrinho porque Labão era irmão de Rebeca, a mãe daquele (Cf. Gn 24,29; 25,20; 27,43; 28,2; 29,10.13)
No Primeiro Livros das Crônicas, lemos: “Filhos de Mooli: Eleazar e Cis. Eleazar morreu sem ter filhos, mas somente filhas, que foram desposadas pelos filhos de Cis, seus irmãos” (23,21b-22). Ora, se os filhos de Cis desposaram as filhas de Eleazar (sendo Cis e Eleazar irmãos), naturalmente, não estavam se unindo em matrimônio às próprias irmãs, mas às suas primas.
Leia-se também: Ex 2,11; Lv 1,1.4; I Cro 15,5-10; Ct 4, 9-10.12; 5,1.
Essas passagens atestam a variedade de significados da palavra “irmão” no contexto veterotestamentário. Por que lemos “irmãos” ao invés das palavras que designam o verdadeiro grau de parentesco? Porque o AT foi originalmente escrito em hebraico e aramaico, línguas afins que não possuem vocábulos específicos para se referir a primos ou parentes. A palavra hebraica utilizada nessas passagens foi “ah”, correspondente ao aramaico “aha”, as quais podem designar tanto irmãos de sangue como outros parentes. Essas palavras foram traduzidas para o grego antigo “adelphos”, na versão dos Setenta, termo que, de fato, designa “irmão”. Por isso, as traduções recentes que temos da Bíblia (que se basearam na versão grega) nos vários idiomas empregam palavras correspondentes a “irmãos”. Porém, no idioma grego há termos específicos para retratar os parentes ou primos. A palavra primo, por exemplo, equivale a “anepsios” no grego antigo. Então, por que os gregos de Alexandria (os 70 sábios que compilaram os textos no AT na Septuaginta) não empregaram os termos mais adequados para evitar dubiedade no texto? Certamente, porque queriam preservar a carga de significados do universo semita, manter a originalidade do texto. Seguindo-lhes o exemplo, os escritores do NT aplicaram a palavra “adelphos” (mesmo podendo usar “anepsios”) para designar aqueles que a Igreja interpreta como sendo primos (ou parentes próximos) do Senhor. Alguém poderia objetar: “Tudo bem. A versão dos Setenta quis conservar o teor semita, levando em consideração a língua em que, originalmente, o AT foi escrito. Porém, o NT foi escrito diretamente em grego e não em hebraico ou aramaico. Por que, então, os evangelistas não empregaram o termo ‘anepsios’ para se referir aos ‘primos’ do Cristo, evitando-se, assim a ambiguidade no texto?” Por uma razão simples: pelo mesmo desejo de manter vivo o sabor do ensinamento semita. Afinal, os hagiógrafos dos Evangelhos eram judeus de origem. Além disso, Jesus e os Apóstolos pregavam em aramaico, de modo que não repugna que o semitismo seja impresso no texto, mesmo que este esteja em grego. Temos outros exemplos de modos expressões semitas usadas nos Evangelhos, que não comentaremos aqui por fugir ao propósito do texto.
Mas alguém poderia ainda dizer: “Se é verdade que a palavra ‘primo’ é evitada no NT por causa das raízes semitas dos escritores sagrados, porque essa mesma palavra é usada no Evangelho de Lucas e na Carta de Paulo aos Colossenses?” De fato, algumas traduções da Bíblia, em Lc 1,36, trazem que Isabel era prima de Maria. Porém, se recorrermos ao original grego, veremos que a palavra empregada nessa passagem foi “syggenís” e não “anepsios”. “Syggenís” significa parenta ou familiar, de modo que a tradução que a converte em prima não é fidedigna. Quanto à passagem de Colossonses, lemos assim: “Saúda-vos Aristarco, meu companheiro de prisão, e Marcos, primo de Barnabé, a respeito do qual já recebestes instruções” (4,10). Realmente, se constata o emprego da palavra grega “anepsios” neste texto, pelo que se conclui que Marcos era, de fato, primo de Barnabé. Porém, precisamos entender que o Apóstolo Paulo não estava escrevendo a judeus de origem, mas a cristãos do Império Romano, cuja língua era o grego, e sem familiaridade com o mundo semita.
Mas quem eram, afinal, os supostos “irmãos de Jesus”? Quais eram seus nomes? De quem realmente descendiam?
Dentre as diversas passagens que mencionam os tais “irmãos de Jesus”, a mais expressiva é, talvez, aquela do Evangelho de S. Marcos: “Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José de Judas e de Simão? Não vivem aqui também suas irmãs?” (6,3). Um paralelo é encontrado em Mt 13,55.
É curioso, no entanto, que os Evangelhos não mencionam em nenhum momento que Maria teve outros filhos, e, sim, que Jesus possuía “irmãos” e “irmãs” (Mt 12,47; Mc 3,31; 8,19; Jo 2,12; 7,3.10; At 1,14).
Vamos tentar identificá-los agora. Começaremos por Tiago. Na Epístola aos Gálatas, S. Paulo diz: “Dos outros apóstolos não vi mais nenhum, a não ser Tiago, irmão do Senhor.” (1,19). Por essa passagem, sabemos que Tiago era um dos Doze. Agora consultemos a lista dos Apóstolos: “Eis os nomes dos doze apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro, depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Felipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu e Judas Iscariotes, que foi o traidor” (Mt 10,2-4). Veja também: Mc 3, 16-19 e Lc 6, 14-16. Qual a relação da Mãe de Jesus com esse Alfeu ou esse Zebedeu? Teria ela desposado algum deles e tido filhos? Nem mesmo nossos irmãos protestantes ousam fazer essa conjetura. Portanto, concluímos que a digníssima Virgem Maria não era mãe de nenhum Tiago Apóstolo, supostamente irmão do Senhor. Sabemos que S. Paulo está se referindo ao Apóstolo Tiago Menor (filho de Alfeu), pois Tiago Maior (filho de Zebedeu) já havia morrido decapitado, por ordem do rei Herodes Agripa (At 12,2), antes do início da pregação paulina. Esse Tiago era irmão do também Apóstolo Judas Tadeu, o que pode ser verificado em Lc 6,16 (“Judas, irmão de Tiago”), At 1,13 (“Judas, irmão de Tiago”) e Jd 1,1 (“Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago”). Identificamos dois dentre os “irmãos” do Senhor. Sabemos que certamente um deles era filho de Alfeu (Tiago). Provavelmente, os demais também o fossem, mas não descartamos a possibilidade de sua mãe ter tido filhos com outro homem, uma vez que pode ter ficado viúva e casado novamente. Mas que era, realmente, sua mãe? Tracemos um paralelo entre os Evangelhos:
- Mt 27,55-56: “Havia ali também algumas mulheres que de longe olhavam. Tinham seguido Jesus desde a Galiléia para o servir. Entre elas se achavam Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José e a mãe dos filhos de Zebedeu“.
- Mc 15,40: “Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé“.
- Jo 19,25: “Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena.”
Pela semelhança entre essas passagens, bem como pelo testemunho da Tradição, Salomé é identificada como a mãe dos filhos de Zebedeu (Tiago Maior e João) e Maria, mulher de Cléofas, como a mãe de Tiago Menor e José (e, provavelmente, também de Judas e de Simão). Essa Maria de Cléofas provavelmente era irmã da Mãe do Redentor (“irmã de sua mãe”), mas não se pode eliminar a possibilidade de que pudesse ser uma sua parente ou prima, haja vista que a palavra empregada no Evangelho segundo João é mesma para designar os “irmãos” do Senhor: “adelphos”. Como quer que seja, não resta dúvida de que Jesus não era irmão, mas primo ou parente de Tiago, José, Judas e Simão (o mesmo se pode afirmar a respeito das tais “irmãs”).
Resta-nos ainda esclarecer uma aparente incongruência nessa questão: Tiago Menor é filho de Alfeu, mas sua mãe é dita mulher de Cléofas.
Esse esclarecimento será apresentado apenas à guisa de curiosidade, uma vez que sua conclusão não pode contrapor o que já foi claramente demonstrado acima: os referidos irmãos de Jesus não são filhos de Maria, Mãe do Senhor.
Há duas pressuposições plausíveis nessa situação: 1) Maria de Cléofas poderia ter-se casado com Alfeu e com ele ter tido Tiago (só Tiago é dito filho de Alfeu nos Evangelhos, mas os outros três podem ser filhos do mesmo homem) e, posteriormente (caso tenha se enviuvado), casado com outro homem (Cléofas), tendo ou não outros filhos com este. 2) Por outro lado, não surpreenderia que esse tal Cléofas fosse o próprio Alfeu, visto que na Sagrada Escritura é comum uma pessoa ser conhecida por dois nomes. Podemos citar alguns exemplos: após ter lutado com o Anjo, Jacó passa a se chamar também Israel (Gn 32,28); Gedeão passa a ser chamado de Jerobaal, após destruir o altar de Baal (Jz 6,32); o sogro de Moisés é chamado Raguel (Ex 2,18-21) e, em seguida, Jetro (Ex 3,1); o Apóstolo Mateus também é chamado de Levi (Mt 9,9; Lc 5,27). Há exegetas que afirmam ainda que Cléofas e Alfeu são formas gregas para designar o nome aramaico Claphai. De qualquer modo, seja Alfeu o mesmo Cléofas ou não, lançamos por terra a alegação de que Maria seja a mãe dos ditos “irmãos” de Jesus.
Vamos nos deter agora às últimas objeções dos que se opõem à Virgindade de Maria.
a)“O filho primogênito”
Em Lc 2,7, lemos assim: “E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria.”
Nossos irmãos protestantes costumam redargüir: “Se é dito que Jesus foi o primogênito, não seria sensato concluir que teve outros irmãos?” Respondemos com um sonoro NÃO.
A palavra primogênito é usada para designar o primeiro filho, ainda que após este não nasçam outros filhos. Chamamos, ademais, de primípara uma mulher que está parindo pela primeira vez, mesmo que ela não tenha paridades subseqüentes.
É importante que nós procuremos alcançar o sentido dessa palavra, considerando o contexto em que ela é aplicada na Sagrada Escritura e os usos que eram comuns à época, e não conforme a cultura de nosso tempo. A palavra hebraica “bekor” (transliteração de primogênito) pode significar simplesmente o filho “bem-amado”, aquele que tem a primazia, a preferência sobre os demais (quando estes existem); aquele que é alvo de um amor especial da parte dos seus pais e da parte de Deus. É um termo técnico da Lei de Moisés que não implica necessariamente a existência de irmãos mais novos, mas é usado para sublinhar a dignidade e os direitos da criança. Aquele que “abre a madre de sua mãe” (essa expressão não pode ser usada para contestar a virgindade de Maria no parto, pois é usada apenas para atestar a posição jurídica do filho e não um fenômeno de ordem fisiológica), o que vem primeiro, adquire os direitos de primogenitura (Gn 25,31-33; Dt 21,17; 2 Cro 21,3), que tinham grande valor na mentalidade dos hebreus. Os direitos de primogenitura não eram proscritos se o primeiro filho não tivesse outros irmãos. Ademais, a palavra primogênito pode ser sinônimo de unigênito para os israelitas, visto que “filho único” também designa o “bem-amado”. Mesmo fora do território da Palestina, o termo primogênito podia ser aplicado para um filho que não tivesse irmão ou irmã mais jovem, o que pode ser constatado numa inscrição sepulcral judaica, datada do ano 5 a. C., descoberta no Egito, em 1922, na qual se lê que uma certa Arsinoé morreu “nas dores do parto do seu filho primogênito”. Ninguém diria que, depois de morta, ela teria tido outros filhos.
Nós também sabemos que o primogênito deveria ser imediatamente consagrado ao Senhor, sem esperar a vinda de um segundo filho. Foi o que aconteceu com nosso Senhor, como podemos ler em Lc 2,22s: “Concluídos os dias da sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentar ao Senhor, conforme o que está escrito na lei do Senhor: ‘Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor’ (Ex 13,2).”
Para os israelitas, uma parturiente que dera à luz um filho homem só era considerada purificada no 40º dia após o parto (Lv 12,1-6), após o que o menino era apresentado ao sacerdote juntamente com a oferta de sacrifício. Maria, embora, não estivesse impura (como se contaminaria com o nascimento do Filho de Deus?), cumpre o preceito judaico, do mesmo modo que seu Filho, posteriormente, mesmo isento de pecado, decide ser batizado por João Batista. O fato, é que Jesus deveria ter 40 dias de idade quando foi apresentado ao templo e, mesmo assim, é chamado de primogênito. Maria poderia ter tido outra criança nesse intervalo? Está claro que não. Podemos concluir, portanto, que a palavra primogênito designa apenas o filho não precedido por outro e prescinde da existência de um segundo filho.
b)”Antes de coabitarem”
Em Mt 1,18b, lemos: “Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo.” Com essa expressão, o evangelista quer eliminar qualquer dúvida sobre a concepção virginal de Jesus, para atestar que Maria concebeu unicamente em virtude do Espírito Santo. Porém, não pretendeu afirmar que após a conceição ou o nascimento do Menino, ela tenha coabitado com José. Poderíamos dizer, por exemplo: “Morreu antes de reparar seus erros perante a sociedade”. É claro que depois de morto, ninguém pode reparar erro algum.
c)“Até que…” / “Até o dia em que…”
“Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho. E ele o chamou com o nome de Jesus” (Mt 1,25).
A expressão “até que” (“até o dia em que…”) se correlaciona com o grego “heos hou” e o hebraico “ad ki” e é usada para indicar um evento que ocorreu (ou não ocorreu) no passado, sem, necessariamente, insinuar algo sobre o futuro. Novamente essa passagem de S. Mateus deseja mostrar que Jesus foi concebido sem a participação de S. José, salientando o mistério extraordinário da Encarnação, milagre da divina Onipotência de Deus. Mas não sugere que depois do nascimento José tenha “conhecido” (tido relações sexuais) Maria.
Vejamos algumas passagens das Escrituras em que a partícula “até que” não é usada para fazer referências a um futuro que se transformaria após estabelecida determinada condição:
- Gn 28,15: “Diz o Senhor a Jacó: Não te abandonarei até que [“ad ki"] eu tenha realizado o que te prometi.” Teria o Senhor abandonado seu servo após o cumprimento de Sua promessa? Naturalmente, não.
- 2 Sm 6,23: “E Micol, filha de Saul, não teve mais filhos até ["ad ki"] o dia de sua morte.” Certamente, Micol não teve filhos depois do dia de sua morte!
- Sl 109 (108),1: “Eis o oráculo do Senhor que se dirige a meu senhor: Assenta-te à minha direita, até que ["ad ki"] eu faça de teus inimigos o escabelo de teus pés“. O Messias é convidado a assentar-se à direita de Seu Pai até que os Seus inimigos sejam derrotados, o que não significa que, após vencidos os adversários, Jesus não estaria mais à destra de Deus.
- Lc 24,49: “Eu vos mandarei o Prometido de meu Pai; entretanto, permanecei na cidade, até que [“heos hou”] sejais revestidos da força do alto.” Com isso Jesus não quis dizer que após a vinda do Espírito Santo em Pentecostes, os onze Apóstolos (Judas Iscariotes não estava mais entre eles) deveriam sair de Jerusalém. A ordem foi para que não saíssem da cidade antes da descida do Paráclito; depois eles poderiam permanecer ali ou não. É claro que a pregação do Evangelho deveria se estender a todos os povos, todas as nações, mas o próprio Cristo dissera para os Apóstolos pregarem antes às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt 10,5). Com efeito, muitos deles permaneceram em Jerusalém até sua morte.
Outra evidência irrefragável de que Maria não tivera outros filhos é o emblemático gesto de Cristo na cruz, entregando sua mãe aos cuidados do Apóstolo João: “Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa” (Jo 19, 26s).
Ora, se Maria tivesse outros filhos para poderem ficar em sua companhia, por que Jesus precisaria confiá-la a João, que era membro de outra família? As narrativas dos Evangelhos levam-nos a crer que Maria já era viúva – não há qualquer menção a José durante a vida pública do Messias, exceto quando para se referir à Sua descendência – e, não tendo outros filhos com quem pudesse ficar após a morte de Jesus, Este a entregou ao Apóstolo mais amado.
Como nós demonstramos acima, as principais objeções à perene virgindade de Maria não passam de sofismas.
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Referências:
1- Concílio de Latrão, Cânon 3. Denzinger , 255. 649).
2- Apud: Carlos Martins Nabeto. A Fé Cristã: Coletânea Citações Patrísticas. Vol. 3: Maria, os Anjos e os Santos. 1 ed. São Vicente, 2007. Pág. 33.
3- Os argumentos desse tópico se fundamentam basicamente em pensamentos expressos nos seguintes textos: Estevão Bettencourt. Irmãos ou primos? Revista Pergunte e Responderemos. N. 472, 2001; Alessandro Manoel da Silva. A Virgindade de Maria. Mar. 2004. Disponível em: http://www.veritatis.com.br/article/2631
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* Chirlei Matos é catequista de crisma na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, Arquidiocese de Vitória da Conquista (BA)


8 de setembro de 2010, às 17:40h
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