ARTIGO: Julho, mês do Dízimo
por Stênio Ferraz Macário
Durante todo o mês de julho, a Arquidiocese de Vitória da Conquista celebra o Mês do Dízimo. É um tempo especial, marcado por uma programação específica com o objetivo de despertar todos os fiéis da arquidiocese para a consciência de que somos membros de uma comunidade e, portanto, temos uma responsabilidade frente a ela.
É interessante notar que mesmo depois de tantos anos dedicando um mês inteiro para a reflexão sobre o dízimo, tantos católicos ainda não compreendem bem o que significa essa dimensão da nossa caminhada.
E aqui eu aproveito a oportunidade para perguntar: Você sabe claramente o que significa o dízimo? Como tem sido a sua experiência como dizimista?
Para lhe ajudar a compreender melhor essas questões apresentarei aqui alguns pontos fundamentais sobre o significado do dízimo para a nossa Igreja.
Dízimo como mandamento da Igreja
Todos nós estamos acostumados a falar sobre os 10 mandamentos da Lei de Deus. No entanto, muitos católicos desconhecem que, além desses, existem ainda os cinco mandamentos da Igreja (para saber mais sobre eles, leia esse artigo) e o dízimo faz parte de um desses mandamentos.
O Catecismo da Igreja Católica nos apresenta o seguinte: “O quinto mandamento (“Ajudar a Igreja em suas necessidades”) recorda aos fiéis que devem ir ao encontro das necessidades materiais da Igreja, cada um conforme as próprias possibilidades” (CIC 2043). Já o Código de Direito Canônico no Cânon 222 nos diz: “Os fiéis têm obrigação de socorrer às necessidades da Igreja, a fim de que ela possa dispor do que é necessário para o culto divino, para as obras de apostolado e de caridade e para o honesto sustento dos ministros” (CDC, cân 222).
Percebemos, então, a importância que o dízimo tem para a nossa Igreja. Mas, não podemos pensar que o dízimo é uma invensão da Igreja Católica. Na verdade, o dízimo sempre esteve presente na história do Povo de Deus. A Bíblia nos apresenta como ele foi vivido em diversos momentos da história.
O dízimo na Bíblia
No Antigo Testamento podemos perceber que desde as origens o povo oferecia os primeiros frutos da colheita e os melhores animais do rebanho a Deus, como forma de agradecimento ou de sacrifício para a expiação dos pecados. Já nos primeiros capítulos do Gênesis nós encontramos exemplos dessa prática de oferendas a Deus. Em Gn 4,1-5 o autor sagrado nos mostra as figuras de Caim e Abel. Caim cultivava o solo e apresentou os frutos de seu cultivo a Deus. Abel era pastor de ovelhas e apresentou os melhores animais do seu rebanho como oferenda a Deus.
A primeira citação explícita sobre o dízimo na Bíblia ocorre em Gn 14, 18-20: “Melquisedec, rei de Salém, trouxe pão e vinho; ele era sacerdote do Deus Altíssimo. Ele pronunciou esta bênção: ‘Bendito seja Abraão pelo Deus Altíssimo que criou o céu e a terra, e bendito seja o Deus Altíssimo que entregou teus inimigos ente tuas mãos’. E Abraão lhe deu o dízimo de tudo.”
Em Deuteronômio 14,22-29 e Deuteronômio 26,12-13 o dízimo é apresentado como um decreto. A cada ano, deve-se separar o dízimo (10%) de tudo o que foi produzido e leva-lo à casa do Senhor. É o dízimo com a finalidade de peregrinação. E a cada três anos, o dízimo deve ser entregue aos estrangeiros, às viúvas, órfãos, enfim, aos mais necessitados daquela época.
A essa altura, estava formado o conceito de dízimo como um imposto fixo, de 10% (a décima parte) de tudo o que era produzido.
Em Malaquias 3, 7-10, o profeta repreende o povo porque havia deixado de cumprir os preceitos em relação ao dízimo. E dá uma ordem, em nome de Deus: “Trazei o dízimo integral para os cofres do Templo, a fim de que haja alimento em minha casa”.
No Novo Testamento o dízimo toma outro sentido. A comunidade não vê mais o dízimo como um imposto, mas como partilha.
“Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um” (Atos dos Apóstolos 2, 4-5).
“A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum.(…) Não haviam entre eles necessitado algum. De fato, os que possuíam terrenos ou casas, cendendo-os, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se então, a cada um, segundo a sua necessidade” (Atos dos Apóstolos 4,32.33).
Percebemos que aí o sentido de comunidade está muito mais presente. Não basta mais separar 10% do que se produz e oferecer a Deus. Os primeiros cristãos sabiam que tudo o que possuíam não lhes pertencia e que, portanto, deveria estar à disposição de todos. Por isso, apresentavam tudo o que tinham à Igreja (apóstolos) para que fosse partilhado de acordo com as necessidades de cada um.
Não se pode mais pensar no dízimo sem o sentido de comunidade e de partilha.
O Dízimo hoje
Para entender o dízimo hoje é preciso ter em mente duas coisas fundamentais: primeiro, tudo o que somos e o que temos vem de Deus, nada é nosso, tudo nos é dado gratuitamente por Deus; e a segunda coisa é que nós pertencemos a uma comunidade, não vivemos sozinhos, participamos de uma comunidade e somos responsáveis por ela.
Assim, o dízimo, para nós dizimistas, assume os seguintes significados:
- culto de louvor a Deus. O dízimo expressa nosso amor e fidelidade ao Pai;
- reconhecimento de que tudo o que temos vem de Deus. Nada é nosso. Tudo o que “conquistamos” foi-nos dado por graça de Deus;
- comunhão com os irmãos. O que temos foi-nos dado para ser colocado em comum para que cada um receba segundo as suas necessidades. Dízimo é partilha. E partilhar não é dar o que nos sobra, mas dar o que o outro precisa.
Por outro lado, para quem administra o dízimo, ele tem o significado de manutenção. É o que torna possível a vivência das três dimensões da ação evangelizadora da Igreja: dimensão religiosa, dimensão missionária e dimensão social.
A dimensão religiosa se refere à manutenção do templo, da liturgia e dos sacerdotes. É com o dízimo que são pagas todas as despesas relacionadas à igreja-templo: energia elétrica, água, telefone, impostos, reformas, etc. É com o dízimo também que são comprados todos os materiais de uso nas liturgias. Você já parou para pensar o quanto se gasta para que aconteçam as missas em sua comunidade? São as hóstias, as velas, os folhetos, os livros de canto, as vestes litúrgicas, os objetos sagrados e alguns outros materiais. Além disso, é com o dízimo também que são sustentados os padres da comunidade. Eles são servidores da Igreja e colocam toda a sua vida a serviço da comunidade. A comunidade tem o dever, então, de dar aos seus sacerdotes condições dignas de vida. “Não sabeis que aqueles que desempenham funções sagradas vivem dos rendimentos do templo, e aqueles que servem ao altar têm parte no que é oferecido sobre o altar? Da mesma forma o Senhor ordenou àqueles que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho” (1Cor 9,13-14).
Outra dimensão apoiada pelo dízimo é a dimensão missionária. A Igreja é chamada à missão, a anunciar o Evangelho aos quatro cantos do mundo. E essa ação missionária também requer investimentos. Nada é de graça. O dízimo tem o papel de financiar as atividades missionárias e de formação dentro da comunidade.
A terceira dimensão em que o dízimo é fundamental é a dimensão social. A Igreja Católica fez uma opção preferencial pelos pobres. Tem o dever de promover e ajudar os que sofrem. É missão de todos nós. É com o dízimo que a comunidade pode realizar as obras de caridade e promoção humana, tão necessárias nos dias de hoje.
Você já tinha se dado conta do quanto o dízimo é necessário para o sustento de sua comunidade?
O que o dízimo não é
Vimos, então, o que significa o dízimo, o que ele é e o que representa para a comunidade. Mas, é preciso tomarmos cuidado com algumas idéias erradas que alguns ainda têm sobre o dízimo. Precisamos saber o que ele não é.
- O dízimo não é imposto. A Igreja não cobra impostos de seus fiéis. Como vimos, devolver o dízimo não siginifica tirar 10% de tudo o que ganhamos. Dízimo é partilha, é ir ao encontro das necessidades da sua comunidade.
- Dízimo não é mensalidade. Não podemos pensar no dízimo como uma mensalidade obrigatória para a participação na Igreja. Em um clube, é obrigatório o pagamento da mensalidade para que você possa entrar e se divertir nele. O não pagamento da mensalidade implica na perda do direito de utilizar o clube. Na Igreja, não existe mensalidade. A Igreja está aberta e sempre estará aberta à participação de todos. O Dízimo é uma oferta livre e expontânea. Sinal do nosso compromisso com Deus e com a comunidade.
- Dízimo não é investimento. Precisamos ter muito cuidado com uma idéia de dízimo como um investimento. “Vou dar o meu dízimo para que Deus me abençoe e me dê tudo o que quero”. Em muitos lugares as pessoas são enganadas com esse tipo de proposta: “Pague o seu dízimo e você verá o que Deus irá fazer em sua vida!”. E, assim, as pessoas dão tudo o que tem com o interesse de que Deus lhes dê um bom emprego, uma casa nova, um carro de luxo, etc. Dízimo é ação de graças, é reconhecimento de que tudo o que temos vem de Deus. Nada é nosso.
Concluindo
Diante de tudo isso, nos resta fazermos uma análise de nossa vida e pensarmos se estamos realmente comprometidos com a obra de Deus, comprometidos com a Igreja, comprometidos com nossa comunidade.
Dízimo é sinal de compromisso. É sinal de fidelidade ao projeto de Deus. É sinal de responsabilidade pela comunidade em que eu participo.
Peçamos a Deus que nos ajude a entender melhor o significado do dízimo em nossa vida e nos dê a graça de fazermos essa maravilhosa experiência de ser um dizimista comprometido.
Recebei, Senhor, minha oferta!
Não é uma esmola, porque não sois mendigo.
Não é uma contribuição, porque não precisais.
Não é o resto que me sobra que vos ofereço.
Esta importância representa, Senhor,
Meu reconhecimento, meu amor.
Pois, se tenho, é porque me destes.
AMÉM.
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Stênio Ferraz Macário é catequista de crisma na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, Arquidiocese de Vitória da Conquista (BA)

