Algumas informações sobre o Rito da Paz
No Rito da Paz, o que é obrigatório e o que não é
Por Michel Pagiossi Silva
Na mais sublime oração da Igreja, a Santa Missa, há um belíssimo pedido pela Paz, porém, nem sempre bem entendido. O momento da Paz, de certa forma, gira em torno de um rito secundário (a saudação) e, não necessariamente, do rito que é principal (a oração sacerdotal pela paz). Vejamos, estamos acostumados com o seguinte esquema em algumas Celebrações:
Terminado o “Pai Nosso” (com um amém), o sacerdote diz:
Livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz. Ajudados pela vossa misericórdia, sejamos sempre livres do pecado e protegidos de todos os perigos, enquanto, vivendo a esperança, aguardamos a vinda de Cristo Salvador.
No que todos respondem: “Vosso é o reino, o poder e a glória para sempre!”. Continuamos, então, todos juntos, o sacerdote e nós: “Senhor Jesus Cristo, dissestes aos vossos Apóstolos: “Eu vos deixo em paz, eu vos dou a minha paz”. Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima vossa Igreja; dai-lhe, segundo o vosso desejo, a paz e a unidade. Vós, que sois Deus, com o Pai e o Espírito Santo. Amém.”.
Diz o sacerdote:
A paz do Senhor esteja sempre convosco!
E nós respondemos:
O amor de Cristo nos uniu.
Então, o sacerdote pede a todos:
Meus irmãos, saudai-vos uns aos outros em Cristo.
Saudamos a todos, saímos dos bancos, andamos pela Igreja enquanto os músicos tocam uma música para a Saudação da Paz.
O problema é, a situação ideal, segundo o Missal e a instrução Redemptionis Sacramentum, não é exatamente esta que foi colocada acima. Comecemos pelo mais básico, a Oração Eucarística terminara no “Por Cristo…”, Nosso Senhor Jesus Cristo está ali no altar, verdadeiramente presente. Terminamos de rezar o “Pai Nosso” e não respondemos “amém”, porque há um complemento a oração que Nosso Senhor nos ensinou que é a oração que o sacerdote, de braços abertos reza:
Livrai-nos de todos os males, ó Pai,
e dai-nos hoje a vossa paz.
Ajudados pela vossa misericórdia,
sejamos sempre livres do pecado
e protegidos de todos os perigos,
enquanto, vivendo a esperança,
aguardamos a vinda de Cristo Salvador.
Esta oração é a continuação direta do Pai Nosso, onde, por nós, o sacerdote pede a paz e nossa libertação do mal e do pecado, enquanto aguardamos a Segunda Vinda de Cristo. Então, confiantes nós respondemos:
Vosso é o reino, o poder e a glória para sempre!
Então, sozinho e de braços abertos, o sacerdote reza a oração pela Paz. Mas, não são todos que rezam esta oração? Não! Isso foi um “erro” litúrgico que se difundiu e, infelizmente, tornou-se comum. Porém, é apenas o sacerdote ordenado que age in persona Christi, ou seja, na pessoa de Cristo que clama, como primeiro representante de toda a Igreja, pela paz. Recapitulando, o sacerdote sozinho e de braços abertos reza:
Senhor Jesus Cristo
dissestes aos vossos Apóstolos:
Eu vos deixo em paz, eu vos dou a minha paz.
Não olheis os nossos pecados,
mas a fé que anima vossa Igreja;
dai-lhe, segundo o vosso desejo,
a paz e a unidade.
(Aqui ele junta as mãos e conclui)
Vós, que sois Deus, com o Pai e o Espírito Santo.
“E nós não fazemos nada, então?”, podem perguntar alguns. Fazemos sim! Nós damos nossa confirmação e anuência ao pedido do sacerdote dizendo “Assim seja!”, com nosso:
Amém.
E aqui vem o mais belo de todos os momentos. Depois de suplicar pela paz a sua Igreja, sendo que nós fazemos parte da Igreja Militante, o sacerdote, nos saúda com a mesma saudação de Jesus Ressuscitado aos apóstolos (Jo 20,21):
A paz do Senhor esteja sempre convosco!
No que respondemos:
O amor de Cristo nos uniu!
E ai está terminado o Rito da Paz e o obrigatório é que se siga, cantando ou rezando, o Cordeiro de Deus (Agnus Dei). “Hey! Mas, aonde está a saudação da paz?”, muito simples, o Missal Romano nos dá a indicação (p. 501, item 129):
Em seguida, se for oportuno (grifo nosso), o diácono ou sacerdote acrescenta estas palavras ou outras semelhantes:
Irmãos e irmãs,
Saudai-vos em Cristo Jesus.
(seguem-se outras fórmulas, no que continua o Missal, na página seguinte):
E todos, segundo o costume do lugar, manifestam uns aos outros a paz e a caridade, o sacerdote saúda o diácono ou o ministro.
Enfim, o Missal não cita a obrigatoriedade da saudação, ao contrário, coloca-a como opcional (a clausula “se for oportuno” indica isso), da mesma forma, ele não fala nada de músicas, cantos ou palmas, nem de passeios pela Igreja, nem do sacerdote vir saudar o povo, ao contrário, a instrução Redemptionis Sacramentum, nos pontos 71 e 72, clareia ainda mais a intenção e o modo sobre como se deve saudar-nos desejando a paz:
[71.] Conserve-se o costume do Rito romano, de dar a paz um pouco antes de distribuir a sagrada Comunhão, como está estabelecido no Ordinário da Missa. Além disso, conforme à tradição do Rito romano, esta prática não tem um sentido de reconciliação, nem de perdão dos pecados, mas sim significa a paz, a Comunhão e a caridade, antes de receber a Santíssima Eucaristia. O sentido de conversão ou de reconciliação entre os irmãos se manifesta claramente no ato penitencial que se realiza ao inicio da Missa, sobretudo na início de suas formas.
[72.] Convém «que cada um dê a paz, sobriamente, só aos mais próximos a si. O sacerdote pode dar a paz aos ministros, permanecendo sempre dentro do presbitério, para que não altere a celebração. Faça-se do mesmo modo se, por uma causa razoável, deseja dar a paz a alguns fiéis». «No que se refere ao significado (sinal) para se desejar a paz, estabeleça, a Conferência de Bispos, qual é a forma mais apropriada», com o reconhecimento da Sé apostólica, «de acordo com a idiossincrasia (características próprias) e os costumes dos povos».
A instrução deixa bem claro o que se deve fazer. O rito da paz não é um rito de reconciliação, isso é o rito penitencial, no início da Missa, é um rito de paz, Comunhão e caridade. Para evitar abusos, o documento continua numerando que saudemos apenas os mais próximos de nós, o sacerdote não deve deixar o altar, podendo (outra clausula de possibilidade) saudar apenas o ministro ou ministros e os fiéis que, se for oportuno, irão saudá-lo deverão subir ao altar. Não se fale nada de música para o momento, o que deve supor-se que, por ser um momento brevíssimo e austero, não faria sentido tê-las e nem possível porque a rapidez do mesmo não o permitiria.
Enfim, termino o artigo com duas informações. A primeira é que, como foi noticiada, por exemplo, pela agência Zenit, o papa Bento XVI estuda mover a saudação da paz de lugar e, nisto, digo a saudação que aqui se faz opcional. Os rumores é que ela seria movida para o momento do Ofertório, como no Rito Ambrosiano, isso nos daria um pouco mais de mobilidade para realizá-lo.
Da mesma forma, e este é meu segundo e último ponto, peço que nos voltemos ao altar no Momento da Paz, quando o sacerdote achar oportuno que saudemo-nos, e que nos lembremos que Nosso Senhor está ali no altar e que nosso decoro pede que fiquemos sempre o tendo como centro, seja da celebração ou de nossas vidas. É ele o Príncipe da Paz (Is 9,5) e só d´Ele nos vem a verdadeira paz. Nosso gesto de saudar o irmão é apenas um sinal e um desejo desta paz, a criação da paz começa, verdadeiramente quando a Missa termina e nós somos convidados a nos converter a uma vida mais justa e pacífica, santificando-nos e ajudando na santificação dos outros, aí sim devemos ser sinais da paz e fazer daquele gesto, que é opcional, oportunidade para fazermos obras de paz. De nada nos adianta saudarmos o irmão na Missa, cantarmos, irmos de um lugar a outro, se ao sairmos da Igreja estamos exatamente como entramos e não transformamos o que ouvimos em obras, lembremos de São Tiago (2,26): “Assim como o corpo sem a alma é morto, assim também a fé sem obras é morta”.
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SILVA, Michel Pagiossi. Movimento Litúrgico: “ALGUMAS INFORMAÇÕES SOBRE O RITO DA PAZ”: NO RITO DA PAZ, O QUE É OBRIGATÓRIO E O QUE NÃO É. Disponível em http://www.movimentoliturgico.com.br/Portal/index.php?option=com_content&view=article&id=54:orbigatoriedade-da-saudacao-da-paz&catid=42:cat-artigos-liturgia&Itemid=53. Desde 02/01/2009.

