Música Litúrgica – o Gradual
Antes de começar, eu gostaria de listar os textos em que, até agora, tratamos do Próprio da Santa Missa:
Neste terceiro texto vamos falar do Gradual, conformei indiquei no fim do artigo sobre o Salmo Responsorial. Antes de começarmos, apenas destaco que a palavra Gradual designa o tipo de peça musical que entenderemos neste texto, mas também é o nome dado ao livro que contém música para as Missas (Gradual Romano, Gradual Simples, em latim Graduale Romanum e Graduale Simplex).
Pela primeira vez, nesta série de textos sobre o Próprio, farei menção à existência de dois ritos litúrgicos, ou para ser mais preciso e mais fiel ao pensamento do papa: à existência de duas formas de um mesmo rito romano. Muitos dos leitores devem estar familiarizados com o fato de que o papa Paulo VI aprovou uma reforma litúrgica que entrou em vigor no Advento de 1969-1970. Essa reforma operou diversas alterações na Liturgia da Missa. Nestes textos nos ocupamos da Missa, mas essa reforma também modificou o Ofício Divino (a Liturgia das Horas) e outros livros litúrgicos. A Liturgia da Missa que a maioria de nós conhece é essa que nos foi dada por Paulo VI. Antes estava em vigor o chamado rito “tridentino”, a “Missa Tridentina”. O papa Bento XVI ensinou, recentemente, que a Missa Tridentina não foi abolida, e que ela e a “Missa de Paulo VI” são duas formas de um único rito romano.
Por que fazemos menção a estes fatos? Porque o Salmo Responsorial, que vimos no texto anterior, não existe na Missa Tridentina. A ideia de cantar um salmo de forma responsorial não é nova; mas o Salmo Responsorial propriamente dito não faz parte da Missa Tridentina.
Sabemos que na Missa Tridentina a Liturgia da Palavra consta de uma única leitura, além do Evangelho. A Missa Nova tem uma leitura a mais nos Domingos e solenidades. Na Missa Nova o Salmo Responsorial vem entre as duas leituras (quando há duas), ou depois da primeira (quando há uma). Na Missa Tridentina, depois da leitura única (não conto aqui o Evangelho), temos o Gradual.
O Gradual é parte integrante da Missa Tridentina. Porém, continua existindo na Missa Nova. A Liturgia nos permite utilizar o Gradual ou o Salmo Responsorial (mas não os dois na mesma Missa, naturalmente). O Salmo Responsorial é a opção utilizada na imensa maioria das igrejas, e possivelmente mesmo em muitos lugares nos quais o canto gregoriano é utilizado correntemente.
Ambas as opções são lícitas e, a princípio, uma não é superior à outra. Certamente o uso do Gradual ocorre há muito mais tempo neste momento da Liturgia. Alguns estudiosos da Liturgia consideram o Gradual superior; outros talvez prefiram o Salmo Responsorial; mesmo vários defendores do Gradual compreendem os benefícios do Salmo Responsorial.
Mas quais são as diferenças concretas entre o Salmo Responsorial e o Gradual? O primeiro já é de conhecimento do leitor. O Gradual é que nos apresenta novidade, neste momento.
O Gradual utiliza muito menos texto do que o Salmo Responsorial. Este último se serve de várias estrofes. O Gradual costuma usar poucos versículos. No Terceiro Domingo da Quaresma são dois versículos (é o caso de numerosos graduais); alguns utilizam três.
Os versículos do Gradual são cantados numa forma que em música chamamos ABA: primeiro versículo, depois o segundo, depois o primeiro novamente.
Não por ter menos texto é que o Gradual se torna mais curto que o Salmo Responsorial, ao menos quando se utiliza um Gradual gregoriano. Os Graduais costumam ser muito melismáticos. O leitor não terá nenhuma dificuldade de entender esta palavra quando ouvir o Gradual Viderunt omnes, da Missa do Dia de Natal.
E, logo abaixo, um guia para o vídeo.
Texto: Sl 97, 3cd-4 (primeiro versículo); 2 (segundo versículo)
Cantor: Matthew Scott
0:14 – 1:17 – Viderunt omnes fines terrae salutare Dei nostri; iubilate Deo omnis terra. Todos os confins da terra viram a salvação do nosso Deus; toda a terra aclame a Deus com alegria.
1:18 – 2:33 – Notum fecit Dominus salutare suum; ante conspectum gentium revelavit iustitiam suam. O Senhor fez conhecer sua salvação; revelou sua justiça à vista das nações.
2:34 até o fim – repetição do primeiro versículo.
Espero que o querido leitor possa ouvir o Gradual inteiro. Se não puder, por algum motivo, dou-lhe o endereço: 1:20 até 1:49. Nesses vinte e nove segundos é cantada uma única palavra: Dominus (Senhor). A maior parte desse tempo é ocupada pela sílaba Do, na qual são cantadas cinqüenta e duas notas. Isto é um melisma: um grande número de notas para uma única sílaba. Não é necessário ter tantas notas para que possamos chamar de melisma, mas casos assim são comuns nos Graduais, e encontramos até melismas maiores. Desta palavra “melisma” é que vem o adjetivo “melismático” que utilizei antes de mostrar o vídeo, quando falei: “os Graduais costumam ser muito melismáticos”. Quando uma melodia usa uma única nota para cada sílaba, o que tem acontece em algumas peças gregorianas, dizemos que é silábica.
Abaixo se pode ver o trecho da partitura em que aparece o melisma:

Mais um vídeo, desta vez do Gradual do Primeiro Domingo da Quaresma, cantado numa Missa Tridentina.
Gradual no Primeiro Domingo da Quaresma – Sl 90, 11-12
Igreja Católica de Santo André (FSSP) – Edinburgo, Escócia
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Compositor e pianista, tem obras apresentadas em diversos países e atua também como músico da Liturgia Católica. No Salvem a Liturgia, escreve sobre música sacra, especialmente canto gregoriano e polifonia.
Fonte: http://www.salvemaliturgia.com/2010/03/musica-liturgica-o-gradual.html



7 de maio de 2010, às 15:49h
[...] Salmo Responsorial Gradual Aclamação antes do Evangelho [...]